EUA falam em usar poder econômico e militar para defender liberdade de expressão em meio a julgamento de Bolsonaro

Porta-voz da Casa Branca, Caroline Leavitt, afirmou que EUA aplicaram tarifas e sanções contra o Brasil para defender “liberdade de expressão”; mercado teme novas sanções

Brasil Estados Unidos vivem mais um capítulo de deterioração nas relações bilaterais. As relações diplomáticas das duas maiores repúblicas das Américas atravessam uma de suas fases mais difíceis na história. E agora o embate ganha novas camadas em meio ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro e de integrantes de seu governo pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

Com sanções econômicas já afetando a economia brasileira, o pano de fundo essencialmente político ficou ainda mais evidente após as falas desta terça-feira (9).

No centro da disputa está a “liberdade de expressão”. Durante entrevista coletiva, a porta-voz da Casa Branca, Caroline Leavitt disse que o presidente dos EUA, Donald Trump, aplicou tarifas e sanções contra o Brasil com o objetivo de proteger esse princípio e afirmou que o país não terá receio de usar o “poder econômico e militar” para defendê-lo.

A declaração foi dada em resposta a uma pergunta sobre o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro no STF e sobre países europeus que estariam restringindo a liberdade de expressão, segundo o jornalista que levantou a questão. Nesta terça, os ministros Alexandre de Moraes e Flávio Dino votaram pela condenação de Bolsonaro.

“Eu não tenho nenhuma ação adicional para antecipar para vocês hoje, mas posso dizer que isso é uma prioridade para a administração, e o presidente não tem medo de usar o poder econômico e militar dos Estados Unidos para proteger a liberdade de expressão ao redor do mundo”, disse Leavitt.

Ela também afirmou que a liberdade de expressão é “sem dúvida, a questão mais importante do nosso tempo” e lembrou que o próprio Trump já teria sido “censurado”.

A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil republicou no X (antigo Twitter) um vídeo com a resposta completa da porta-voz. No entanto, a mensagem que acompanha o post não trouxe a parte em que ela fala sobre o uso de poder militar.

O jornalista responsável pela pergunta à porta-voz da Casa Branca foi Michael Shellenberger, que atua no Twitter Files Brazil. Esse material foi usado por Elon Musk, dono da plataforma X, para acusar o Judiciário brasileiro de censura na rede social.

As medidas de Trump contra o Brasil

As sanções dos EUA contra o Brasil que estão em vigor incluem uma tarifa de 50% sobre uma série de produtos brasileiros (com uma lista extensa de exceções). Outras medidas aplicadas abrangem a Lei Magnitsky (de violação de direitos humanos) contra Alexandre de Moraes e o cancelamento de vistos de alguns ministros do STF e de integrantes do Ministério da Saúde.

Há ainda restrições sobre a delegação brasileira que planeja viajar aos Estados Unidos para a Assembleia Geral da ONU em Nova York neste mês. O próprio Trump acompanha de perto o tema.

Também nesta terça, o perfil oficial da Embaixada dos EUA no Brasil no X republicou mensagem de um subsecretário do governo Trump afirmando que os Estados Unidos continuarão tomando “as medidas cabíveis” contra Alexandre de Moraes.

Cautela nos mercados

A possibilidade de novas sanções dos EUA acabou trazendo mais uma camada de incerteza aos mercados brasileiros em meio à retomada do julgamento de Bolsonaro. Ao longo do pregão desta terça-feira (9), o Ibovespa teve dificuldade em manter os ganhos do início do dia e acabou fechando a sessão em queda. 

Segundo Matheus Spiess, analista da Empiricus Research, o mercado hoje teve dois gatilhos:  um no Brasil — o julgamento no STF — e outro nos EUA, com a perspectiva de corte de juros na próxima semana. 

Depois de renovar máximas intradia durante a manhã, o Ibovespa inverteu o sinal no meio da tarde e terminou a sessão em baixa de 0,12%, aos 141.618,29 pontos. Na máxima do dia, o principal índice da bolsa brasileira chegou aos 142.285,53 pontos. Na mínima, foi a 141.605,45 pontos. No mercado de câmbio, o dólar à vista avançou 0,35%, cotado a R$ 5,4363.

Os investidores acompanham de perto o julgamento, especialmente diante do voto de Alexandre de Moraes, pela condenação. Flávio Dino também seguiu o relator. Ainda faltam os votos de cinco ministros. A decisão do STF está prevista para sexta-feira (12).

*Portfólio pessoal de Guilherme Castro Borges, publicada originalmente no seudinheiro.com

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